Arte para ver, sentir e conversar

Duas individuais de artistas goianos movimentam a Cerrado Cultural e ganham novos olhares em encontros que aproximam arte, memória e identidade

DESTAQUECULTURAPUBLICIDADE

9/2/20263 min read

A arte também acontece no encontro. É quando uma obra deixa de ser apenas objeto exposto, ganha novos olhares, provoca conversa, desperta memórias e, quem sabe, até muda alguma coisa em quem passa por ela. É justamente essa atmosfera que vem movimentando a Cerrado Cultural, no Lago Sul, onde duas individuais de artistas goianos estrearam na segunda quinzena de agosto e seguem em cartaz até 12 de setembro: “Antes do couro ceder”, de Rafael de Almeida, e “Um abraço em um fio de lã”, de Abraão Veloso.


As exposições chegaram a Brasília cercadas de prestígio. A abertura reuniu artistas, curadores, colecionadores e convidados de diferentes lugares, em uma noite que celebrou não apenas a estreia dos trabalhos, mas também a força de uma produção contemporânea que olha para o Centro-Oeste a partir de suas paisagens, afetos, memórias e identidades. Mais recentemente, a galeria voltou a receber público para uma experiência conduzida por um grupo de mulheres capitaneado por Valentina Trigo de Loureiro, que reuniu 25 pessoas para uma visita guiada pelas mostras e pelo acervo da Cerrado Cultural.

No térreo, “Antes do couro ceder” apresenta o universo de Rafael de Almeida a partir de uma combinação tão improvável quanto instigante de linguagens. Sob curadoria do jornalista e crítico italiano Matteo Bergamini, o artista mistura cianotipia, fotografias de arquivo, imagens produzidas por inteligência artificial, colagens e pintura a óleo para investigar o imaginário do Cerrado e tensionar a figura do cowboy, suas representações e os modelos de masculinidade associados ao cotidiano rural.

É uma exposição que nasce de uma relação visceral com o território. Rafael transforma referências pessoais e coletivas em imagens que oscilam entre memória, realidade e ficção, criando um Cerrado que não é apenas paisagem, mas também lugar de pertencimento e construção de identidades. O resultado é um percurso visual que convida o visitante a olhar para aquilo que parece familiar por outros ângulos.

No andar superior, o clima muda, mas a conversa sobre identidade permanece. Em “Um abraço em um fio de lã”, Abraão Veloso aproxima pintura, tecelagem e crochê para construir cenas de intimidade, afeto e pausa. Com curadoria do artista e pesquisador Divino Sobral, a mostra reúne trabalhos produzidos entre 2024 e 2026 e coloca em cena jovens negros e integrantes da comunidade LGBTQIAP+, ao mesmo tempo em que recupera fazeres manuais e memórias familiares.


Há algo de profundamente afetivo no trabalho de Abraão. O fio, a trama, o gesto manual e a pintura funcionam como ferramentas para construir personagens e situações que falam de acolhimento, desejo, amizade e pertencimento. Uma exposição que, como o próprio título sugere, parece querer envolver o visitante em um abraço — sem abrir mão da potência política de colocar corpos, histórias e afetos no centro da cena.

E foi justamente o desejo de compartilhar essas experiências que levou Valentina Trigo de Loureiro a reunir amigos e apreciadores de arte para um “rolê cultural” na galeria. Frequentadora da Cerrado Cultural desde 2020, a estudante de Direito de 21 anos assumiu, informalmente, o papel de uma espécie de embaixadora do espaço. Para ela, a arte funciona também como uma pausa na rotina acadêmica e como possibilidade de enxergar o mundo por outros caminhos.

A visita guiada, conduzida pela arte-educadora Débora Passos, ampliou a experiência ao apresentar os processos criativos das duas exposições e também obras do acervo da galeria. Mais do que uma programação paralela, o encontro reforçou uma característica que parece estar no DNA da Cerrado Cultural: transformar a visita a uma exposição em oportunidade de convivência, troca e descoberta.

Para quem ainda não passou por lá, a boa notícia é que não é preciso ter participado da abertura nem do encontro mais recente para embarcar nessa experiência. “Antes do couro ceder” e “Um abraço em um fio de lã” permanecem abertas ao público até 12 de setembro, com entrada gratuita.

É uma boa oportunidade para conhecer duas vozes contemporâneas que chegam de Goiás a Brasília falando, cada uma à sua maneira, sobre aquilo que nos constitui: o lugar de onde viemos, as pessoas que nos atravessam, as memórias que carregamos e os afetos que escolhemos preservar. E, de quebra, descobrir que uma boa exposição não termina quando se sai da galeria. Às vezes, é justamente ali que começa a conversa.

Serviço

Exposições: “Antes do couro ceder”, de Rafael de Almeida, e “Um abraço em um fio de lã”, de Abraão Veloso

Curadorias: Matteo Bergamini e Divino Sobral

Período expositivo: 15 de agosto a 12 de setembro de 2026

Local: Cerrado Cultural – SHIS QI 05, Chácara 10, Lago Sul, Brasília – DF

Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 13h

Entrada: gratuita

Instagram: @cerrado.galeria


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