O aço que flutua: a arquitetura do cansaço em "A Queda de Atlas"
Subvertendo a brutalidade do metal por meio de complexos cálculos estruturais, instalação de quase sete toneladas de Anderson Schneider transforma o fardo da sociedade moderna em leveza estética. Obra abre para visitação em agosto no SESI Lab.
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A gravidade, força implacável que rege a matéria, é poeticamente desafiada e subvertida na nova proposição do arquiteto e artista visual Anderson Schneider. Em agosto de 2026, o SESI Lab, em Brasília, abre suas portas para acolher a exposição de A Queda de Atlas, uma monumental instalação interativa que tenciona os limites entre escultura, arquitetura e engenharia.
Brasília acaba de ganhar uma nova presença monumental – e ela parece desafiar a própria gravidade. Inaugurada no SESI Lab nesta última semana de agosto (25), A Queda de Atlas, do arquiteto e artista visual Anderson Schneider, chegou chamando todas as atenções por sua combinação de aço, concreto, arquitetura e engenharia. Monumental e interativa, a instalação tensiona os limites entre arte e estrutura ao fazer parecer leve aquilo que pesa quase sete toneladas.
Erguida sob os princípios da tensegridade – sistema estrutural baseado no equilíbrio estático entre tração e compressão contínuas, consolidado por teóricos como Buckminster Fuller e Kenneth Snelson –, a obra consiste em um imponente "origami" de aço e concreto de quase sete toneladas. Por meio de um arranjo físico minucioso, a maciça geometria superior não repousa sobre pilares. Em vez disso, ela paira, pendurada de baixo para cima por finos cabos de aço galvanizado. A ilusão óptica resultante sugere que a estrutura não está sendo sustentada, mas sim ancorada ao chão para impedir que decole rumo ao firmamento.
Para Schneider, a obra tensiona a percepção visual e espacial do observador. "É uma peça de geometria estrutural que funciona com esforços puros. Eu tenho duas peças gêmeas de aço e a que fica em cima está presa à de baixo por nove cabos. Só que é a de cima que está pendurada na de baixo. Quando você olha, é como se a gravidade tivesse sido invertida. Naturalmente, dá um 'tilt' no cérebro", explica Schneider, ressaltando o viés científico de sua criação. "Tem uma beleza nessa submissão da geometria às forças da gravidade. A raiz dessa obra está mais na ciência do que na expressão individual", completa.
Do mito à exaustão contemporâne
O rigor matemático e estático da obra é, no entanto, a âncora material para uma profunda investigação simbólica. O título desborda o mito de Atlas, o titã grego condenado por Zeus a suportar os céus por toda a eternidade. Ao cair extenuado, esmagado pelo rigor de seu castigo, Atlas perceberia que o firmamento não desabou. A sua verdadeira condenação não era física, mas mental: a crença de que possuía uma responsabilidade intransferível.
Nesta intersecção conceitual, Schneider aproxima o mito à realidade performática do século XXI, dissecada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço. Ao substituir o modelo disciplinar da repressão pelo fetiche voluntarioso da produtividade, da meritocracia e da hiperconexão, o indivíduo contemporâneo tornou-se prisioneiro e, ao mesmo tempo, a sua própria sentinela. O peso esmagador que adoece a sociedade com depressão, ansiedade e esgotamento é um fardo invisível, autoinfligido e crônico.
"Eu comecei a fazer analogias com essa responsabilidade esmagadora que a gente tem. É uma pressão gigantesca da sociedade por performance. E se a gente fizesse amizade com os monstros que nos assustam?", provoca o autor. Como resposta lúdica a essa opressão, A Queda de Atlas acomoda, sob a sombra ameaçadora de sua massa levitante, um singelo balanço. A obra convida o público a um ato de devaneio e suspensão: balançar-se pendurado a uma estrutura que, embora massiva, parece não estar pendurada a lugar algum.
O olhar sobre a transitoriedade
A fusão entre o peso do mundo e a leveza do convite reflete a trajetória multifacetada de Anderson Schneider. Arquiteto e urbanista formado pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em projetos paramétricos e design digital, Schneider iniciou sua carreira no fotojornalismo em 1998. Documentou realidades extremas – desde tribos Xavantes e garimpos amazônicos até os conflitos entre xiitas e sunitas no Iraque e os escombros do Haiti pós-terremoto.
A partir de 2014, migrou sua pesquisa investigativa para a arquitetura, focando na dinâmica entre a materialidade e a imaterialidade. Atualmente dividindo-se entre a Gerência de Arquitetura do Supremo Tribunal Federal e a Direção Criativa do Estúdio Monada, o autor traduz, no aço corten de sua nova instalação, longas reflexões sobre a transitoriedade e a incompletude como valores intrínsecos à vida.
Fomento e viabilização
O impacto visual e arquitetônico de A Queda de Atlas reafirma a importância de uma sólida rede de incentivo cultural. É imprescindível destacar que a construção e a materialização desta obra monumental somente são possíveis graças ao investimento público do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC/DF), aliado ao patrocínio direto da Pinheiro Ferragens. Ambos os recursos foram destinados à complexa execução física e estrutural da peça. Já o SESI Lab, por sua vez, entra como um pilar fundamental da iniciativa ao abraçar a vocação pública da obra, cedendo seu prestigiado espaço institucional para acolher a exposição e promover o encontro entre a instalação e o público.
Serviço:
Exposição "A Queda de Atlas", de Anderson Schneider
Quando: A partir de agosto de 2026
Onde: área externa do SESI Lab (Setor Cultural Sul, Brasília - DF)
Entrada e mais informações: Livre e gratuita | @aquedadeatlas


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